Neste artigo
- Por que o investidor pede o EBITDA antes do lucro?
- O que significa cada letra do EBITDA?
- Como calcular o EBITDA da sua empresa?
- Como calcular a margem EBITDA e por que ela diz mais que o valor?
- Por que a empresa tem EBITDA bom e o caixa vazio?
- Quanto vale a sua empresa pelo múltiplo de EBITDA?
- O que entra no EBITDA ajustado?
- Onde o EBITDA pode enganar você?
- Como deixar o EBITDA pronto antes da próxima reunião?
Você marca um café com um investidor, ou com alguém interessado em comprar uma parte do seu negócio. O faturamento está na ponta da língua: R$ 1 milhão no último ano. Ele balança a cabeça e pergunta: "E o EBITDA?". Se nessa hora você abre o celular para procurar a planilha, a conversa muda de tom.
EBITDA é o resultado da operação antes de juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. Em português, a mesma medida se chama LAJIDA. Ele mostra quanto o negócio gera com o que vende e com o que gasta para funcionar, sem a interferência das dívidas, do regime tributário e do desgaste contábil de máquinas e equipamentos. O investidor pede esse número primeiro porque é com ele que se compara uma empresa com outra e se começa a discutir quanto ela vale.
Para calcular, você pode partir do lucro líquido e somar de volta o IR e a CSLL, o resultado financeiro líquido, a depreciação e a amortização. Ou pode partir da receita líquida e tirar os custos e as despesas operacionais. Os dois caminhos chegam ao mesmo valor. Abaixo está a conta feita numa DRE completa, do jeito que você levaria para essa reunião.
Por que o investidor pede o EBITDA antes do lucro?
Quem compra uma participação na sua empresa quase sempre vai mexer em alguma coisa: renegociar a dívida, trocar o banco, rever o regime tributário. Por isso ele quer enxergar o que a operação produz sozinha, antes dessas escolhas. O lucro líquido mistura tudo. O EBITDA separa.
Esse é o número que abre a conversa sobre valor. O investidor João Kepler, na época à frente da Bossanova Investimentos, escreveu na Exame que "'Eu acho que vale' não cabe no mercado profissional, menos ainda quando se trata de negociações reais com investidores". No mesmo texto, ele lista os múltiplos de EBITDA entre os parâmetros usados para avaliar um negócio.
A cobrança aparece também na televisão. Monique Evelle, investidora da oitava temporada do Shark Tank Brasil, deixou um recado para quem pensa em se inscrever no programa: "Estude os termos do universo de negócios. O que é EBITDA? Margem? Sabe responder sobre métricas de negócio?".
E o investidor não é o único que pergunta. O gerente do banco costuma olhar quantas vezes a sua dívida cabe no EBITDA antes de liberar crédito. Um comprador faz a mesma conta antes de fazer uma proposta.
O que significa cada letra do EBITDA?
A sigla vem do inglês Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization. Cada letra indica algo que fica fora da conta:
- Interest (juros): despesas e receitas financeiras, como juros de empréstimo e rendimento de aplicação.
- Taxes (impostos): tributos sobre o lucro, ou seja, IRPJ e CSLL. Impostos sobre vendas, como ICMS, ISS, PIS e Cofins, continuam descontados.
- Depreciation (depreciação): perda de valor contábil de bens físicos, como máquinas, veículos e computadores.
- Amortization (amortização): o mesmo raciocínio aplicado a bens intangíveis, como software, marcas e direitos.
LAJIDA é a tradução direta e aparece em relatórios de empresas brasileiras. Para companhias abertas, a Comissão de Valores Mobiliários padroniza a divulgação do LAJIDA na Resolução CVM 156/2022. A pequena empresa não é obrigada a seguir essa norma, mas ela serve de régua para você calcular do jeito que o mercado entende.
Como calcular o EBITDA da sua empresa?
Existem dois caminhos. Um sobe a partir do lucro líquido. O outro desce a partir da receita.
Exemplo com uma DRE simplificada
Imagine uma distribuidora de pequeno porte que faturou R$ 1.000.000 no ano. A DRE ficou assim:
| Linha da DRE | Valor (R$) |
|---|---|
| Receita bruta | 1.000.000 |
| (−) Impostos sobre vendas | 100.000 |
| = Receita líquida | 900.000 |
| (−) Custo das mercadorias vendidas | 450.000 |
| = Lucro bruto | 450.000 |
| (−) Despesas operacionais (pessoal, aluguel, vendas, administrativas) | 300.000 |
| = EBITDA | 150.000 |
| (−) Depreciação e amortização | 30.000 |
| = Lucro operacional (EBIT) | 120.000 |
| (−) Resultado financeiro líquido (juros pagos menos rendimentos) | 20.000 |
| = Lucro antes do IR e CSLL | 100.000 |
| (−) IR e CSLL | 24.000 |
| = Lucro líquido | 76.000 |
Pelo caminho da receita: 900.000 − 450.000 − 300.000 = R$ 150.000.
Pelo caminho do lucro líquido: 76.000 + 24.000 + 20.000 + 30.000 = R$ 150.000.
Os dois batem. Se na sua empresa não baterem, algum item foi lançado na linha errada. O erro mais comum é deixar juros de empréstimo ou a taxa de antecipação de recebíveis dentro das despesas operacionais. Isso derruba o EBITDA sem que a operação tenha piorado, e isso aparece assim que alguém confere a DRE.
Como calcular a margem EBITDA e por que ela diz mais que o valor?
R$ 150.000 é muito para quem fatura R$ 1 milhão e pouco para quem fatura R$ 10 milhões. Por isso quem analisa empresas olha a margem:
No exemplo: 150.000 ÷ 900.000 × 100 = 16,7%. De cada R$ 100 de receita líquida, sobram R$ 16,70 de resultado operacional antes de depreciação, juros e impostos sobre o lucro.
Algumas empresas calculam a margem sobre a receita bruta, o que daria 15% no mesmo exemplo. As duas formas circulam no mercado. Diga qual base você usou e compare sempre na mesma.
O uso mais útil da margem é dentro de casa. Acompanhe mês a mês. Uma queda de dois ou três pontos costuma aparecer antes de o problema chegar ao caixa, e ainda dá tempo de mexer em preço, desconto e despesa. Se a margem está baixa por causa do preço, revise o markup e a forma de precificar os produtos. Se o problema está no mix, a margem de contribuição de cada item mostra quem puxa o resultado para baixo.
Por que a empresa tem EBITDA bom e o caixa vazio?
Essa é a dúvida de muito empresário que vê o relatório do contador positivo e a conta do banco no limite. EBITDA, lucro líquido e geração de caixa medem coisas diferentes:
- EBITDA: resultado da operação antes de juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização.
- Lucro líquido: o que sobra para os sócios depois de todas as despesas, inclusive juros, impostos e depreciação. É a base para distribuir lucros.
- Geração de caixa: o dinheiro que de fato entrou e saiu. Inclui investimentos, variação de estoque e de contas a receber e pagamento do principal das dívidas, itens que não aparecem na DRE.
Voltando à distribuidora. No mesmo ano em que teve EBITDA de R$ 150.000, o caixa se moveu assim:
| Movimento | Valor (R$) |
|---|---|
| EBITDA | 150.000 |
| (−) IR e CSLL pagos | 24.000 |
| (−) Juros pagos | 20.000 |
| (−) Aumento de estoque e contas a receber | 40.000 |
| (−) Compra de equipamentos e veículo | 35.000 |
| (−) Amortização do principal de empréstimos | 30.000 |
| = Variação do caixa | 1.000 |
EBITDA de R$ 150.000, lucro líquido de R$ 76.000 e só R$ 1.000 a mais no banco. Nenhum dos números está errado. Cada um responde a uma pergunta. Quem olha só o EBITDA pode achar que tem dinheiro sobrando para retirar, quando o caixa foi todo consumido pelo crescimento e pelas dívidas. Antes de decidir quanto tirar da empresa, olhe os três juntos.
Quanto vale a sua empresa pelo múltiplo de EBITDA?
Na compra e venda de empresas, um método comum é aplicar um múltiplo sobre o EBITDA. O resultado é o valor da empresa como um todo, chamado de enterprise value. Para chegar ao que fica com os sócios, desconta-se a dívida líquida.
Exemplo hipotético: se comprador e vendedor da distribuidora concordarem com um múltiplo de 5 vezes, a empresa vale 150.000 × 5 = R$ 750.000. Se ela tem R$ 200.000 em empréstimos e R$ 50.000 em caixa, a dívida líquida é de R$ 150.000 e o valor para os sócios fica em R$ 600.000.
O múltiplo de 5 está aí só para mostrar a conta. O número real muda com o setor, o tamanho, o crescimento, a concentração de clientes, o momento do mercado e, principalmente, com o quanto a empresa depende do dono. Negócio pequeno que para quando o fundador tira férias costuma receber múltiplo menor, porque o comprador assume mais risco. Múltiplo de referência deve vir de transações parecidas ou de uma avaliação feita por profissional, nunca de um número ouvido numa conversa.
O que entra no EBITDA ajustado?
O EBITDA ajustado tira da conta os eventos que não se repetem, para mostrar o resultado recorrente da operação. É o número que costuma ir para a mesa numa negociação.
Ajustes comuns:
- Somar de volta despesas pontuais, como uma indenização trabalhista fora do padrão ou uma multa isolada.
- Retirar ganhos pontuais, como o lucro na venda de um veículo da empresa.
- Ajustar a remuneração dos sócios para o valor de mercado da função que exercem.
Exemplo: a distribuidora pagou R$ 20.000 numa ação trabalhista antiga e teve R$ 10.000 de ganho com a venda de um veículo, ambos lançados nas linhas operacionais. O EBITDA ajustado fica em 150.000 + 20.000 − 10.000 = R$ 160.000.
O terceiro ajuste pega muita gente de surpresa. Se você retira pouco ou nenhum pró-labore, a despesa de pessoal fica menor e o EBITDA parece maior do que é. O comprador vai colocar na conta o salário de alguém para fazer o seu trabalho, e o número cai.
Onde o EBITDA pode enganar você?
- Investimento fica de fora. Uma empresa que precisa trocar máquinas com frequência pode ter EBITDA alto e pouco dinheiro livre. A depreciação existe justamente para lembrar esse custo.
- Capital de giro fica de fora. Vender com prazo longo aumenta o EBITDA do mês, mas o dinheiro só entra depois.
- A dívida fica de fora. Duas empresas com o mesmo EBITDA podem estar em situações opostas se uma deve o dobro da outra.
- Depende de classificação. Sem uma contabilidade gerencial organizada, cada mês joga despesas em linhas diferentes e o número perde comparação.
Por isso o EBITDA anda junto com o fluxo de caixa e o lucro líquido. Leve os três para qualquer negociação.
Como deixar o EBITDA pronto antes da próxima reunião?
- Monte uma DRE gerencial mensal com as linhas separadas: receita, impostos sobre vendas, custos, despesas operacionais, depreciação, resultado financeiro e impostos sobre o lucro.
- Calcule o EBITDA e a margem EBITDA todo mês, sempre com o mesmo critério.
- Compare com o mesmo mês do ano anterior e com a média dos últimos 12 meses.
- Coloque ao lado o fluxo de caixa do período para ver quanto do EBITDA virou dinheiro.
- Anote os ajustes do ano, com o documento de cada um.
O próximo passo é simples: peça ao seu contador a DRE dos últimos 12 meses com juros, depreciação e impostos sobre o lucro em linhas próprias e refaça a conta pelos dois caminhos deste artigo. Se os números baterem, você já tem a resposta para a pergunta do investidor. Se não baterem, ache o lançamento fora do lugar antes da reunião. Para entender de onde vem cada real do resultado, o próximo número a olhar é o seu ponto de equilíbrio.
Perguntas frequentes
O que é EBITDA de forma simples?
É o resultado da operação da empresa antes de descontar juros, impostos sobre o lucro, depreciação e amortização. Mostra se o negócio, sozinho, gera resultado.
Qual a diferença entre EBITDA e LAJIDA?
Nenhuma. LAJIDA é a sigla em português (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) para o mesmo indicador.
Como calcular o EBITDA a partir do lucro líquido?
Some ao lucro líquido o IR e a CSLL, o resultado financeiro líquido, a depreciação e a amortização. O total deve bater com a receita líquida menos custos e despesas operacionais.
EBITDA é o mesmo que geração de caixa?
Não. O EBITDA ignora investimentos, variação de estoque e contas a receber, juros e pagamento de dívidas. A empresa pode ter EBITDA positivo e caixa estável ou negativo no mesmo período.
Fontes
Conteúdo educativo. Regras de imposto e contribuição mudam: confira sempre a situação da sua empresa com o seu contador. Como produzimos nossos conteúdos.